“Eu não acredito em gente que dorme com o diabo e deus juntos. Não gosto de gente que não toma posições; pra mim, uma pessoa tem de ter uma posição, mesmo que seja contra a minha” - em
tom erguido e agudo, foram convidadas estas palavras a ressoar no
movimento do lado de dentro do autocarro, setecentos e vinte e sete,
aquando voltava dos mortos, literalmente. Sentia-se na sua voz feminina e
áspera, um certo sossego oscilante e sinceridade ufana, como se se
cuidasse de uma verdade há pouco achada, e tão facilmente achada, como
se se cuidasse de uma descoberta um tanto satisfatória, mas não tanto
quanto isso, não o suficiente para receber retorno, à excepção do comum
abanar de cabeça vertical de rostos alheios, num concordar automático.
Parece medo. Sabia lá se acabara de contar a sua verdade a quem a não
pratica. Talvez, até, e provavelmente, a quem a pratica ao contrário… É
perigoso não conhecer o outro lado e esbanjar premissas sem pedir
permissão. Declara-se inconscientemente, uma sentença a quem fugir à
oração em causa. Mais insuportável ainda, é o consentir dessa sentença
por parte de quem ouve, e abana o rosto labiríntico, evidentemente
metade demoníaco, metade divino. Fiz questão de não querer saber se
estava a ser vista, e olhei pra trás para presenciar a resposta física e
ter certeza do que poderia retirar dali; fiz questão de assombrar-me
olhando os rostos ambíguos e confusos de quem ouvia; fiquei estupefacta
com tamanha imbecilidade, no sentido da grandeza de auto-repressão
espásmica, isenta de coragem e veracidade; ou talvez, tamanha compaixão.
Não sei bem, parece-me a mim que somos todos escravos da confusão
mental, e quando somos confrontados com isso pelos poucos que crêem
dominá-la um pouco melhor, simplesmente queremos deixar de existir
naquele momento, desejamos que haja um erro de existência, uma falha
errante que nos permita dissolver no céu. Tudo se borra como um deslize
de aguarela; toda a nódoa que temos tentado esconder, drasticamente
mancha a realidade do lado de fora; e de tão densa, espessa e escura,
por mais que a tentemos suavizar, não é da sua natureza ser suave, não é
da sua natureza ser ténue, delicada ou graciosa; é exactamente o
inverso, e não dá para amansar nem domar o que é indomável, é claro. No
entanto, ciclos aprisionada, essa mancha monstruosa manteve-se em
cativeiro pelos mesmos que a fazem manifestar ciclos mais tarde, quase
cómico. Há quem reprima a sombra do lado de dentro da jaula do
subconsciente, e há os que a alimentam para ali se manter, acostumando-a
ao seu habitat longínquo e solitário; tal como há quem a desperte
estando-lhe consciente e há quem a continue a alimentar para que
finalmente se manifeste. A intenção da segunda pessoa, a de fora, em
ambas as hipóteses, é a de alimentar, tornando a sombra sempre viva;
seja para a manter reprimida e paralisada, seja para finalmente a
manifestar, numa táctica de enfurecimento, exaltando a pouca serenidade
que restava; como as crianças pequenas e grandes que provocam os
babuínos nos zoos, mal eles sabem o que aconteceria se aquelas
barras de ferro derretessem, pouco lembrariam dos seus rostos se é que
houvesse energia para relembrar de coisa alguma. A intenção da pessoa
que carrega a sombra em questão, deverá ser compreendê-la, mas depende
até que ponto se estende a sua intimidade consigo mesma…
O que é suposto fazer agora? Deixar o monstro sair ou ser devorado por ele?
Sabia
lá, esta mulher, se os seus amigos que a acompanhavam, não teriam
dormido a noite passada com o diabo e deus juntos, e todas as outras
pessoas que a ouviram involuntariamente. Sabia lá, e já deu mais uma
percentagem de si. Sabia lá, e cada uma dessas pessoas não só dorme com o
diabo e deus juntos, como os traz consigo para todo o lado. Sabia lá se
deus e o diabo não se faziam presentes aquando ela mostrou reprovação a
esse facto. Sabia lá e já poderia estar a ser asfixiada num ápice…
Não por deus, não pelo diabo, mas pelas pessoas que se satisfazem mais
com um do que com o outro, ou só mesmo para implicar, com os dois ao
mesmo tempo; a devoção é perigosa e tudo o que leva rumo a ela: a
atracção, a sedução, a fascinação e a perversão, todas elas levam à
persuasão, que é mais ou menos o que esta mulher tentava, ainda que
inconsciente, não se pode dizer que é vítima, a menos que seja vítima da
sua própria devoção, o que é compreensível.
Não sei, porém, a que
força esta mulher se devota e se deita todas as noites. Não posso sequer
palpitar. Posso, pelo contrário, começar a intuir um palpite sobre quem
se deita comigo cada noite, se singular, se plural, e se posso, sequer,
ter algum domínio sobre isso.
Os mortos não devem ter questões como
estas… pelo menos tinha acabado de voltar do seu reino e lá estavam
eles, sorridentes. Menos físicos, é claro, mas sorridentes, o que não
quer dizer nada. Prende-nos o facto de alguém (ainda que morto) sorrir.
Já os babuínos, que estão bem vivos, são sombras nossas esquecidas e
humilhadas, a cada sorriso com espírito que damos em frente da sua
gaiola, a gargalhada, essa flecha, que me tem dado ódio observar como a
lançam. Seres que ocultam o seu espírito e soltam sorrisos espectrais,
deviam deparar-se com a sua cama vazia ao chegar a casa, sem deus nem
diabo, sem nada a que se agarrarem, sem a quem prosternar. Quero agora
ouvir o eco da vossa gargalhada sob o ermo branco dos lençóis e das
paredes! Quero agora ouvir o vosso rugido ou o vosso gemido!
Experimentem só: podem agora conviver com a repetição da vossa erma voz. (e borrarem-se.)
“Is it better to out-monster the monster or to be quietly devoured?”
Friedrich Nietzsche, Good and Evil
12~13(?) Fevereiro, 2016