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Sounds perfect Wahhhh, I don’t wanna

mendigar por um propósito

 Voltava para casa: naquela tarde sentia a pressão de estar miseravelmente sozinha entre tanta gente e ruído, semelhanças sem igualdade, nada de novidade; sem sorriso, sem motivo e de espontaneidade minguante, inexpressiva caminhava Morais Soares abaixo, encarando uma máscara, um hábito que não era o meu, em passo leve flutuante, desconfiado e arisco; sustendo a respiração aquando passava entre as nuvens de fumo soprado p’los lábios dos vultos lá fora - acho que foi um novo hábito com que me vesti.
 Metro de Arroios: saca da carteira, viola a máquina pedinte com as moedas mais baixas, passa o cartão de acesso à viagem para que portas te abram. “Boa Viagem. O título é válido”. Finge teres finalidade; que a intenção não a tenhas deixado em casa. Relembra o destino e abstrai-te do caminho; afinal somos formigas, mas menos eficazes e próximos: imagem que ilustra bem o ambiente de metro e seus passageiros.
 Pronta esperando o comboio subterrâneo, estudo as pessoas e esqueço-me de mim; atropela-me o turbilhão mental, um Negro.
 Afrontando-me de perto, estende-me a mão em crosta, lascas de pele suja; mendiga, a tom baixo e rude, por quatro euros, a fim de conseguir entrar no centro de acolhimento ainda naquela noite - início de inverno tardio - como alternativa tinha a rua. Em gesto involuntário volto os braços para trás para alcançar moedas que tivesse e assim lhas coloquei na palma da mão. Curioso e impaciente, chegou mais perto de mim sussurrando: “Tira a mochila com calma…” num gestualizar de dedos e olhar como que puxassem uma corda invisível de mim pra ele, implorando discretamente em tom bizarro e assustador que lhe desse tudo o que tinha. Dei-lhe o pouco que tinha: troco do metro e um olhar neutro, mas empático. Olhou-me insatisfeito, mas grato.
 Foi confuso cumpliciar o olhar ávido dele mas agradecido…
 A chegada do metro atropelou o nosso encontro: apressada logo entrei na carruagem que se me parou à frente, e é tudo. Já ele, correu depressa mendigando outréns, sem perder tempo, porque todos os instantes são de sobrevivência - e se a dele não correspondia onde dormir naquela noite gélida como me havia dito, haveria de ser tão importante quanto, nem que para comprar a sua morte breve.
 Ao menos, ele tinha propósito; eu tinha apenas pressa.

(ensinamento real: 21 dezembro 2015)