Montanha de vento, sou a loba pele vermelha, insecto individual, gente que não o é. Poeira de deserto e sede de cascata, marsúpio sem vida, morte do não-tempo. Bosque curioso, feminino das pétalas de saladas de verdes, ventosas azuis oceano onde mergulho em roxos de tulipas. Ar puro onde não há humanidade, assim respiro. Graças ao alívio suspirante, realizo e dou-me a quem por mim cruzar em laço de serenidade. Melaço de cana e conforto de ninho, solto as asas pela primeira vez do alto do pinheiro e suspiro. Estou pronta. Podia morrer agora, se me querem levar, aproveitem. Não sinto falta, estou vazia de tudo. E só me apetece água fresca. Afagar um animal e fundir-me com ele, assim seja. Pois as nuvens continuam a passar. Êxtase supremo que é o final da vida, falam por aí. Venham buscar-me, esqueci-me do caminho e não quero mais memórias. Até já, Serendipity
Sirvo de ouvinte pras piores lâminas
Elas adoram esta dança, são vãs animas
Mas não m´animas, aliás, roubas-me a alma,
Tiras-me a calma, enalteces-m'o trauma
D´viver num corpo d´fêmea,
Não bastasse, deram-me outra (alma) gêmea
Que não se cala. Bem tento matá-la
Mas ela brinca, ela safa-se
Ela não se irrita, ela acha-se
Mutável demais pra perder tempo com emoções
Faz diss'um malabarismo onde exercita tesões
Mas nunca se satisfaz por completo,
Segredo inquieto, que não admite; - vítima Afrodite,
Até quando vais deixar q'o carnal te finte? (te excite)
Mendicante da sua própria condição, Errante
Abandona tod'a razão, e não quer compromissos
Vagueia vadia, renuncia a morada, prefere abismos
Q'a contemplem; e neles pede abrigo por uma noite (só)
Q'a decifrem: invoca Eros o filho, Ares o pai,
E tod'o delírio vindo duma dor de pó, que não se esvai
Seu amante, Dionísio, traz o conforto do vinho e o alívio,
Do devaneio, a não adivinhação de destino pessoal e alheio
Quer-se o copo meio cheio e sonho que baste
Quimera, folia, imaginação e fecundidade
Sem perder o não-sentido e a ilusão
Duma queda livre sem chão, que interrompa esta loucura!
Somos criaturas!
Monstros transmorfos a inovar culturas absurdas
Em danças primitivas, entregas lascivas a um deus
Êxtases e violências desmedidas, no reino dos céus de Zeus
Ménades enfurecidas, devotas, cultuam Baco e,
Cálice, Silene, Enante num ermo orgíaco espaço
De facto, a luxúria cresce num abraço de caco, num coração d'aço
Onde nos sentimos e somos pântanos de escarro
Viciosos a tudo a que se parece a cigarro, agarramos em tudo
Fumamo-lo amiúde, e adormecemos num desassossego alado
Somos perigosos cactos, rosas espinhosas debaixo deste açaime de lacre
Devoção ao desastre: de não, (nunca) nos encontrarmos
Somos o massacre, de sempre, numa tentativa, tentarmos
Coisa alguma. Gémeos em monólogo de diálogos de pluma
Marte, se não me salvas, mata-me;
Vénus, se não me amas, desfaz-me
Corto-me em charme, sangue lunar e espasmo
D'um corpo surreal de sarcasmo,
Onde Asmodeus encarna o orgasmo
De ser o homem mais impuro já nascido,
Trouxe guerra entre a luxúria e o Cupido
E Lilith, renunciou à sagrada planície,
‘Pra viver junto dum homem alado de três cabeças de precipício
Intempérie, algo que a vicie e aqueça,
Mais qu'a tentação das estepes, ela cria a tempestade e a doença
Morte e ventos breves onde se une na Criação como serpente
Áspide, seduz o provar da semente, e provoca
Ela sufoca, à volta do pescoço da humanidade
Reza 'pra que não rezemos e não vejamos o construir da Cidade
Pinturas rupestres nascem entre sangue de sacrifícios
Extractos de folhas, ossos e ofícios, tantos, de tantos povos
Já não se fala de Vida nem de Conhecimento
Já não se usa dialecto, só fumo cinzento; habitamos um convento
Perverso e discreto de Cimento
Nosso deus, nosso servo, ávido e avarento
Celebramos a era do ruído onde o silêncio é mal visto
Íngreme, não consigo, suportar estas vozes vorazes no meu ouvido
Capazes de te por a gritar e irromper o silêncio q'anseias
Anciã, perdoa-me a estranheza estrangeira,
Amalteia, permite-me ser digna de pureza como tu e Reia
Que pelo Pai dos Deuses foste oferendada graciosa,
Fertilidade, abundância e riqueza em teus chifres de cornucópia,
Símbolo fértil do equinócio,
Outono feminino e masculino utópico,
Onde bagas, grãos, frutas e folhas brotam no útero da Terra
Marsúpio deveras, que dá à luz híbridos entre pavões e feras
Plantas carnívoras arrastam-se pela Idade das Trevas
Dou um passo e ela avança comigo, Kali Yuga, ciclo, Idade do Vício
E ainda faltam milhares de Eras de desperdício
Liberta-me! sem fuga, quero regressar ao Silêncio,
Renunciar formigueiros e qualquer espécie de casulo
Desaprender tudo e voltar ao valor nulo
Renascer e respeitar as Árvores, deidades
Que nos dão quase tudo;
02:48, 3 Março 2016

