ãnimas

Sirvo de ouvinte pras piores lâminas
Elas adoram esta dança, são vãs animas
Mas não m´animas, aliás, roubas-me a alma,
Tiras-me a calma, enalteces-m'o trauma
D´viver num corpo d´fêmea,
Não bastasse, deram-me outra (alma) gêmea
Que não se cala. Bem tento matá-la
Mas ela brinca, ela safa-se
Ela não se irrita, ela acha-se
Mutável demais pra perder tempo com emoções
Faz diss'um malabarismo onde exercita tesões
Mas nunca se satisfaz por completo,
Segredo inquieto, que não admite; - vítima Afrodite,
Até quando vais deixar q'o carnal te finte? (te excite)
Mendicante da sua própria condição, Errante
Abandona tod'a razão, e não quer compromissos
Vagueia vadia, renuncia a morada, prefere abismos
Q'a contemplem; e neles pede abrigo por uma noite (só)
Q'a decifrem: invoca Eros o filho, Ares o pai,
E tod'o delírio vindo duma dor de pó, que não se esvai
Seu amante, Dionísio, traz o conforto do vinho e o alívio,
Do devaneio, a não adivinhação de destino pessoal e alheio
Quer-se o copo meio cheio e sonho que baste
Quimera, folia, imaginação e fecundidade
Sem perder o não-sentido e a ilusão
Duma queda livre sem chão, que interrompa esta loucura!
Somos criaturas!
Monstros transmorfos a inovar culturas absurdas
Em danças primitivas, entregas lascivas a um deus
Êxtases e violências desmedidas, no reino dos céus de Zeus
Ménades enfurecidas, devotas, cultuam Baco e,
Cálice, Silene, Enante num ermo orgíaco espaço
De facto, a luxúria cresce num abraço de caco, num coração d'aço
Onde nos sentimos e somos pântanos de escarro
Viciosos a tudo a que se parece a cigarro, agarramos em tudo
Fumamo-lo amiúde, e adormecemos num desassossego alado
Somos perigosos cactos, rosas espinhosas debaixo deste açaime de lacre
Devoção ao desastre: de não, (nunca) nos encontrarmos
Somos o massacre, de sempre, numa tentativa, tentarmos
Coisa alguma. Gémeos em monólogo de diálogos de pluma
Marte, se não me salvas, mata-me;
Vénus, se não me amas, desfaz-me
Corto-me em charme, sangue lunar e espasmo
D'um corpo surreal de sarcasmo,
Onde Asmodeus encarna o orgasmo
De ser o homem mais impuro já nascido,
Trouxe guerra entre a luxúria e o Cupido
E Lilith, renunciou à sagrada planície,
‘Pra viver junto dum homem alado de três cabeças de precipício
Intempérie, algo que a vicie e aqueça,
Mais qu'a tentação das estepes, ela cria a tempestade e a doença
Morte e ventos breves onde se une na Criação como serpente
Áspide, seduz o provar da semente, e provoca
Ela sufoca, à volta do pescoço da humanidade
Reza 'pra que não rezemos e não vejamos o construir da Cidade
Pinturas rupestres nascem entre sangue de sacrifícios
Extractos de folhas, ossos e ofícios, tantos, de tantos povos
Já não se fala de Vida nem de Conhecimento
Já não se usa dialecto, só fumo cinzento; habitamos um convento
Perverso e discreto de Cimento
Nosso deus, nosso servo, ávido e avarento
Celebramos a era do ruído onde o silêncio é mal visto
Íngreme, não consigo, suportar estas vozes vorazes no meu ouvido
Capazes de te por a gritar e irromper o silêncio q'anseias
Anciã, perdoa-me a estranheza estrangeira,
Amalteia, permite-me ser digna de pureza como tu e Reia
Que pelo Pai dos Deuses foste oferendada graciosa,
Fertilidade, abundância e riqueza em teus chifres de cornucópia,
Símbolo fértil do equinócio,
Outono feminino e masculino utópico,
Onde bagas, grãos, frutas e folhas brotam no útero da Terra
Marsúpio deveras, que dá à luz híbridos entre pavões e feras
Plantas carnívoras arrastam-se pela Idade das Trevas
Dou um passo e ela avança comigo, Kali Yuga, ciclo, Idade do Vício
E ainda faltam milhares de Eras de desperdício
Liberta-me! sem fuga, quero regressar ao Silêncio,
Renunciar formigueiros e qualquer espécie de casulo
Desaprender tudo e voltar ao valor nulo
Renascer e respeitar as Árvores, deidades
Que nos dão quase tudo;

02:48, 3 Março 2016